"Acordou. Olhou em volta. Certificou-se de não estar atrasado. Pensou que mesmo se estivesse atrasado isso não seria um problema, afinal, quem haveria de sentir falta? Não era o emprego dos sonhos. Não era a casa dos sonhos. Definitivamente não era a vida de seus sonhos. Mas a cada manhã pensava: vai melhora, há de melhorar, tem que melhorar.
Angústias que sentia; memórias que levava; dores na alma que não passavam. É, pensava, piorar não irá. Talvez nem ele mesmo soubesse o que ainda o fazia levantar a cada novo sol que entrava pela janela de seu pequeno apartamento que o salário permitia pagar. Tentava tirar o melhor de si mesmo, sempre tentou, mas começou a se questionar onde isso o levaria mesmo. A hora de desistir poderia ser qualquer hora, mas a hora de ser feliz também poderia ser a qualquer hora. Essa ambiguidade, esse pico e essas oscilações de sentimentos ocupavam sua mente mais do que o normal nos últimos dias.
Mas hoje, pelo menos hoje, iria ser diferente. A vida não tá pra brincadeira, e ele sabe disso. Mas a hora dele não pode esperar. Ele sabe que ainda há contas para pagar, fome para saciar, saúde para cuidar e um aluguel para pagar. Mas há também uma alma dentro dele que não pode esperar mais o momento de ir em frente, de ir em busca, de querer e conseguir. Decidiu: iria se atrasar. Mas iria se atrasar por um simples motivo: pediria demissão. Sim, ele iria pedir demissão. E o que seria da vida, das contas, da fome e tudo mais? Não sabia ao certo. Mas diga, quem ao certo sabe da vida? Nem eu, nem tu, nem ele. Fosse como fosse, sabia que tinha paixões dentro de si, sonhos e habilidades esperando para por em prática. Não sabia nem como nem por onde começar, mas sabia que ao deixar para trás a vida “formal” e ir em busca da vida “louca”, seria feliz mesmo que pagando caro. Completaria dentro de si o vazio de viver a vida construída pelos outros, mas não por si mesmo. Agora seria dono da sua vida, dono do seu destino, mestre dos seus sonhos. Faria pela primeira vez na vida aquilo que a maioria nunca fará: buscaria a felicidade, mesmo que lhe custasse a lucidez perante olhos alheios. E assim, louco e destemido, ele foi. Fez da vida o seu brinquedo; dos seus caminhos o porto seguro; dos sonhos a felicidade; da sua “loucura” a salvação."
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